Agar e as suas muitas irmãs

No pranto desesperado da escrava Agar, narrado no livro do Génesis, podemos reconhecer todos os prantos das servas da terra, de ontem e de hoje; todas as mulheres humilhadas por outros homens e mulheres poderosos; os prantos e os silêncios das vítimas, de todos os migrantes e refugiados através de desertos e mares. Estes capítulos da Bíblia cheios de beleza, de humanidade, de dor, fazem chegar até nós muitas mensagens. A primeira é sobre conflitos e vias de solução. Sara nunca reconhece Agar como um “tu”: no texto não a chama nunca pelo nome, mas sempre e só «escrava»; apenas YHWH a chama Agar. Sem o reconhecimento do outro não se ultrapassa bem nenhum conflito. O estatuto de Sara – matriarca e patroa – leva a melhor sobre aquela solidariedade entre mulheres que tantas vezes se manifestou e manifesta, para além dos estatutos. Não é nunca indiferente se o primeiro olhar sobre as vidas e as cidades é o de Agar ou o de Sara. Se os olhos de Agar forem os primeiros a ver, poder-se-á compreender que o olhar mais fecundo sobre o mundo não é o das princesas e dos poderosos, mas o que parte das periferias bíblicas e existenciais. Continuar a ler…

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