Sonoridades errantes: Revisitando José Augusto Mourão

José Augusto Mourão luta com as palavras para que o dizer litúrgico não seja a clausura de Deus. Assim, a linguagem que persegue apela tanto às figuras da confiança numa presença pascal, como à fragilidade do que apenas se entrevê: «pense-nos o teu lado, / as feridas abertas do imaginário sem freio, / pastor que guardas a porção de terra / apenas entrevista, / junta ao nosso passo a tua bênção, / a tua misericórdia e a tua água». Nessa perspetiva o tempo é intervalo: «tu que és a graça e o rigor / das linhas desenhadas, / a onda que regressa e que advém / neste intervalo de terra prometida / e de deserto». Do seu labor literário e ensaístico fica também uma palavra crítica perante as estratégicas e as táticas que fecham a liturgia cristã ao desejo. Quando tudo se torna produção – visível, explicável, eficaz, relação de forças – a liturgia perda a capacidade de seduzir. Tudo é literalmente dito, ou seja, tudo é acumulação e clonagem. Continuar a ler…

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