O Papa já não mora aqui

Acompanhei João Paulo II em muitos momentos, mais de 20 viagens ao estrangeiro, desde Santiago de Compostela até Seul e muitos países de África. Mas lembro aqui uma apenas. A São Tomé. Como sempre, os jornalistas vão à frente (exceto quando vêm no mesmo avião do Papa, como me aconteceu quando visitou a primeira vez a Portugal). O povo foi ao aeroporto de S. Tomé receber João Paulo II. E depois correu apressadamente para uma esplanada, o local da celebração. O Papa chegou primeiro e teve de esperar pelo povo. Quarenta graus. Nem uma sombra. O carro chegou ao recinto, parou e aí esteve não sei quanto tempo à espera que os cristãos chegassem para a celebração. Parecia um Getsemani. João Paulo II tinha o rosto quase coberto com grossas gotas de suor. Lembro-me que andei a filmar à volta do carro. Parei ao lado, bem próximo. Ele olhou para mim como que a dizer: esta cruz é minha. E teve, a seguir, uma expressão semelhante à deste painel alto, mesmo na minha frente na Sala de Imprensa. É a imagem dum homem que assume o nosso peso e o entrega a Deus. Muitas vezes o surpreendi nesta expressão noutros momentos e situações. Tenho até impressão que sendo homem de multidões, não a via, assumia cada um diante daquela mole humana aparentemente impessoal. Continuar a ler…

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