Caminhos de futuro para a Economia

A questão pode pôr-se simplesmente como: Queremos seguir, como dizia St. Irenaeus of Lyons, «a antiga lei da liberdade humana» para conduzir as nossas próprias vidas e sermos responsáveis perante Deus, a Família e os vizinhos? Ou queremos desistir desse dom sem preço em troca de promessas falsas? Ou de outra forma, queremos desistir da Liberdade que implica Responsabilidade? É fácil? Não, é extremamente difícil e sabemos pouco sobre o caminho. Mas também sabemos que para problemas complexos não há soluções simplistas, nem perfeitas. Que o caminho se faz de pequenos passos, passos pequenos e simples, que são os que cada um de nós pode dar. Que a resiliência é uma condição fundamental para o sucesso. Não a teimosia, mas a capacidade de ser capaz de corrigir caminho, de aliviar a carga e recomeçar só com o que provou valer a pena. Continuar a ler…

Cinema: “O ato de matar”

“O ato de matar” é um documento impressionante e de dificílima digestão que nos obriga a pensar, da mais séria e dura forma, sobre os limites da (des)humanidade e, inevitavelmente, sem vislumbre de arrependimento, sobre a possibilidade de perdão. O filme interessa sobretudo pelos dois tipos de reflexão que oferece: uma, certamente a mais óbvia e terrível, sobre o conteúdo; e outra, menos evidente mas igualmente importante, sobre a sua forma. No que respeita a esta última, vale a pena ter em atenção que, no cinema, um realizador atua sempre. Mesmo por omissão. Pois a forma como câmara e sujeito se encontram é sempre sua opção. E sabe, desde logo, que um encontro entre duas pessoas não é o mesmo que um encontro entre alguém e uma câmara. É nesse sentido que a liberdade conferida aos testemunhos que aqui se apresentam, com a particularidade de cada um representar a sua memória e a relação de consentimento com os seus tenebrosos atos de forma própria, pode (e deveria) ser, mais que estética, eticamente discutida. Continuar a ler…

Corpo velado

Tocar o ponto tangencial da nossa contingência é apelar para um corpo-rosto que se entreabre à transcendência. Esta presença entre-aberta é visível no ícone de mármore “Cristo velado” do artista Giuseppe Sanmartino (1753) na capela de Sansevero em Nápoles. Absolutamente único. É impossível não sentir-se olhado e tocado por este corpo-rosto sereno, esbelto, profundo, que entreabre o olhar para uma luz única e poderosa. Não um corpo espiritualizado, mas o corpo passional, marcado pela materialidade dos objetos da paixão. Um véu transparente profundamente des-velativo, opacamente transparente. Diante deste corpo-volto dilatado que nos atinge como um bisturi, há um texto de autor anónimo do século X que é adequado à figuração: “Queira Deus omnipotente dar-nos a graça de estarmos alegres diante do seu rosto”. Continuar a ler (com imagens)…

Em memória de Vasco Graça Moura: Um poeta é alguém que ensina a ver

O que é um poeta na terra? É alguém que ensina a ver. Alguém que não se conforma que o olhar dos homens fique capturado pelo breu, pela desesperança ou pelo medo. É alguém que nos infernos e purgatórios da história rasga saídas criativas, fendas para olhar mais longe, miradouros debruçados sobre um futuro outro, capaz de estilhaçar a fatalidade. Claro que a matéria de trabalho de um poeta é a palavra. Mas a palavra não é só palavra: é sede, é desejo de comunicar, é mergulho na realidade para a compreender melhor, é a sabedoria de perceber que o visível é também um signo do invisível e que não se pode separar o audível do inaudível, a palavra do silêncio. Continuar a ler…

O céu não está sobre Babel

A história de Babel encerra uma crítica radical a todo o império e, por isso, ao poder. Do fundador de Babel (Nimerod), o Génesis diz: foi o primeiro grande chefe que existiu (10,8). Babel é símbolo da cidade fortificada; mas sobretudo é símbolo do império. Não é uma crítica radical a todo e qualquer poder (também o Adam e Noé têm poder), mas ao poder que não é usado para salvar. Ainda hoje o poder salvífico de Noé e o poder dos impérios de Babel continuam a conviver lado a lado, a entrelaçar-se nas cidades e instituições. Há quem use o poder que recebeu dos cidadãos ou dos acionistas dentro de um pacto-aliança (político, económico, familiar, educativo…) com vista a uma salvação e, há quem, pelo contrário, o use para dominar e para obter rendas e privilégios: o império. Há um poder que salva e um poder que mata; e muitas vezes, quase sempre, eles coabitam nas mesmas organizações, instituições, empresas; por vezes no mesmo departamento e, até, na mesma sala, onde construtores de arcas se sentam ao lado de construtores de Babel. Continuar a ler…

O Papa já não mora aqui

Acompanhei João Paulo II em muitos momentos, mais de 20 viagens ao estrangeiro, desde Santiago de Compostela até Seul e muitos países de África. Mas lembro aqui uma apenas. A São Tomé. Como sempre, os jornalistas vão à frente (exceto quando vêm no mesmo avião do Papa, como me aconteceu quando visitou a primeira vez a Portugal). O povo foi ao aeroporto de S. Tomé receber João Paulo II. E depois correu apressadamente para uma esplanada, o local da celebração. O Papa chegou primeiro e teve de esperar pelo povo. Quarenta graus. Nem uma sombra. O carro chegou ao recinto, parou e aí esteve não sei quanto tempo à espera que os cristãos chegassem para a celebração. Parecia um Getsemani. João Paulo II tinha o rosto quase coberto com grossas gotas de suor. Lembro-me que andei a filmar à volta do carro. Parei ao lado, bem próximo. Ele olhou para mim como que a dizer: esta cruz é minha. E teve, a seguir, uma expressão semelhante à deste painel alto, mesmo na minha frente na Sala de Imprensa. É a imagem dum homem que assume o nosso peso e o entrega a Deus. Muitas vezes o surpreendi nesta expressão noutros momentos e situações. Tenho até impressão que sendo homem de multidões, não a via, assumia cada um diante daquela mole humana aparentemente impessoal. Continuar a ler…

O Espírito da Democracia

O que o 25 de Abril nos legou não é propriamente uma obra acabada, que nos cabe apenas conservar. Pensemos na democracia. Claro que a instauração do regime representa um extraordinário momento histórico. Mas a democracia não está feita. É em cada dia, em cada ciclo que ela se constrói e reinventa para poder cumprir-se. A democracia tem muitas ameaças, que mesmo não sendo ameaças ao sistema, são ofensas ao espírito da democracia: e elas provêm sobretudo da pobreza, do desemprego, da exclusão e da injustiça. Continuar a ler…