É novo » 26.3.2014

A beleza, caminho de diálogo com os não crentes
Identifico o primeiro grau de dificuldades no interior da própria Igreja, enquanto comunidade de crentes. Este diálogo suporia que os cristãos fossem capazes de tornar a beleza presente no diálogo entre eles, na sua maneira de interpretar a vida, considerando a plenitude da vida, à qual aspiram, como uma experiência de fé. Identifica-se facilmente a beleza com a arte, sem que se dê conta que pode haver experiências de beleza que nunca foram materializadas em expressão artística. A beleza deveria ser uma experiência contínua na vida do cristão. A Igreja possui um vasto património de arte religiosa, mas ele é considerado sobretudo como um tesouro a preservar, sem se ser capaz de o integrar nas expressões atuais da vida de fé. A Liturgia, fonte principal e viva da beleza cristã, nem sempre o é, e a Teologia é mais influenciada pelo racionalismo científico e pelas ciências humanas do que pela contemplação simples e profunda da harmonia do mistério. A dimensão mística da compreensão da fé pode revelar-se decisiva para fazer da vida uma experiência de beleza. Há um longo caminho a percorrer na Teologia, na pastoral, na linguagem, para tornar os cristãos capazes de fazer da beleza o lugar de um diálogo com os não crentes.

Primaverar
O nosso juízo de arrumação e remate (e as idealizações que projetamos a esse respeito) é enganador, mais não seja porque a vida é viva, florescente, é uma sucessão infinda de começos. Desde que nascemos estamos não só prontos para morrer, mas estamos sobretudo preparados para nascer, as vezes que forem precisas. Primaverar é persistir numa atitude de hospitalidade em relação à vida. Ao lado do previsto, irrompe o imprevisível que precisamos aprender a acolher. Misturado com aquilo que escolhemos, chega-nos o que não escolhemos e que temos, na mesma, de viver, transformando-o em oportunidade e desafio para a confiança. A primavera não tem uma linha demarcada: transborda sempre e temos de preparar-nos para isso. Ela não fica a alegrar apenas os canteiros muito bem ordenados. A sua floração inédita dá-nos o endereço da torrente, para lá da vida que pensamos domesticada pelos nossos cálculos.

As igrejas de Shigeru Ban, Prémio Pritzker de Arquitetura 2014 | IMAGENS |
A “arquitetura de cartão” é uma das marcas do arquitecto japonês Shigeru Ban, a quem foi atribuído o Prémio Pritzker de arquitetura, distinção considerada o “Nobel” na categoria. Em 1995, um violento sismo destruiu significativamente a cidade japonesa de Kobe, incluindo a igreja da paróquia católica de Takatori. Shigeru Ban (n. 1957) ofereceu o projeto que haveria de substituir temporariamente o espaço. Os materiais foram doados por empresas, e a construção, concretizada por 160 voluntários, ficou concluída em cinco semanas. O projeto incluiu 58 tubos de cartão, dispostos em elipse. A edificação foi desmontada em junho de 2005 e os materiais foram enviados para uma cidade em Taiwan. Em 2007, a igreja foi substituída por outra, também da autoria de Shigeru Ban, que se eleva em forma de cone sobre um complexo de edificações. No mês de fevereiro de 2011, a cidade neozelandesa de Christchurch foi sacudida por um tremor de terra que destruiu praticamente a catedral.

O perdoado que não perdoa
No Antigo Testamento, sobretudo em algumas correntes da Teologia da Prosperidade, a riqueza é valorizada como uma bênção divina. A saga dos patriarcas bíblicos mostra que uma grande família, abundância de rebanhos, ricas colheitas e uma vida longa valem como assinatura da bondade de Deus. O contrário é sinal de castigo. Ser rico é um sinal da graça; ser pobre é uma vergonha, uma miséria. Acontece, porém, que a desigualdade na repartição da riqueza levanta problemas. Ver ricos ao lado de pobres, no seio daquele que se considerava o Povo de Deus, era um escândalo, feria a ordem divina: «não deve haver pobres entre vós». Mas havia. Perante esta situação inaceitável, para não carregar mais, mas abrir o futuro, surgiu uma legislação audaciosa, expressa no ano Sabático, de 7 em 7 anos, e no ano Jubilar, de 49 em 49, destinados ao repouso da terra, ao perdão das dívidas e à libertação dos escravos (Levítico 25; Êxodo 23; Deuteronómio 15). A lição é clara: só uma redistribuição periódica dos bens permite abater a espiral infernal da pauperização.

O Evangelho das imagens | IMAGENS |
«Antes que passem o céu e a terra, não passará da Lei a mais pequena letra ou o mais pequeno sinal, sem que tudo se cumpra.»

Agenda para hoje

Lisboa
Conferência: “O lugar do pensamento social cristão na construção da cidade”
D. Manuel Clemente, Manuela Ferreira Leite, Américo Pereira
Para saber mais: Pastoral da Cultura

Lisboa
Música: Concerto
O Messias (Händel) (excertos)
Coro de Câmara da Universidade de Lisboa, Coro do Tejo, Orquestra Barroca da Escola Superior de Música de Lisboa
Igreja das Mercês
21h30
Entrada livre

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