É novo » 10.3.2014

Uma bombarda no coração
Acção de Graças significa dizer «obrigado», agradecer, e ainda, mantendo este modo pleunástico, mostrar gratidão a Deus. «Contigo sou sempre agradecido» canta a banda Xungaria no Céu numa das suas canções e este parece ser o lema justo para tatuar no braço de um cristão: a infinita e misteriosa bondade que Deus tem por nós, nunca nos largando da mão e actuando segundo Sua infinita sabedoria de um modo que não é alheio à claridade dos nossos olhos vesgos, mas refém dela. A maravilhosa acção que gostaria de entregar ao Senhor em gratidão, e aquela que mais gostaria de sublinhar, é o momento fundador que transforma para sempre a vida do homem cuja vida e obra, nos próximos dias, é celebrada de modo especial. Aquilo a que sou grato é nada mais nada menos que estilhaços de pólvora, um grave ferimento de guerra, para ser mais preciso, uma «bombarda».

Quaresma: Espiritualidade e missão segundo o papa Francisco (cardeal Bergoglio)
A nossa identidade está ameaçada; não exercemos como antes a liderança moral nem temos um lugar social de relevância; apresentam-se-nos problemas para os quais, aparentemente, não temos resposta. Somos uma minoria e resistimos a ser um entre muitos. Permanece sempre latente a tentação de fugir para uma “Társis” que pode ter muitos nomes: individualismo, espiritualismo, encerramento em pequenos mundos, dependência, instalação, repetição de esquemas, dogmatismo, nostalgia, pessimismo, refúgio nas normas… (…) Tal como Jonas, podemos ouvir um chamamento persistente que volte a convidar-nos a percorrer a aventura de Nínive, a aceitar o risco de protagonizar uma nova evangelização, fruto do encontro com Deus que é sempre novidade e nos impele a romper, partir e deslocarmo-nos para ir mais além do conhecido, para as periferias e as fronteiras onde está a humanidade mais ferida e onde os homens, sob a aparência da superficialidade e conformismo, continuam à procura da resposta à pergunta pelo sentido da vida. Ao ajudarmos os nossos irmãos a encontrarem uma resposta, também nós encontraremos renovadamente o sentido de toda a nossa ação, o lugar de toda a nossa oração e o valor de toda a nossa entrega.

Um mundo a recomeçar a partir da mulher e do “Tu”
As estatísticas mostram que nas empresas e bancos são principalmente as mulheres que sofrem porque os postos de trabalho foram pensados, desenhados e promovidos por teorias onde falta “a outra metade” do mundo e da economia. Mudar a economia para a tornar à “medida de mulher” implicaria – faço apenas um aceno – rever também a teoria e a praxis da gestão da casa, a economia familiar, a educação dos filhos, o cura dos idosos. E muitas outras coisas mais. As dificuldades do tempo presente dependem também do não se conseguir valorizar a enorme energia relacional e moral das mulheres, hoje ainda demasiado hóspedes e estrangeiras no mundo produtivo dos homens onde, por isso, não conseguem exprimir todas as suas potencialidades e talentos. Também a economia está à espera de ser vivificada pelo génio feminino.

Pobreza espiritual, caminho de vida
A pobreza espiritual também se expressa na aceitação de si. Não temos apenas mal-entendidos com os outros. Por vezes, o maior e o mais difícil mal-entendido é connosco próprios. Não nos aceitamos, não nos abraçamos, não nos acolhemos, não nos perdoamos. Aceitar-me no que sou e não sou, no que fui, no que não fui, no que não consegui, no que correu bem e no que correu mal, na fraqueza e na fragilidade. Como é que se torna fecunda a vida pobre? Na aceitação confiante de si. Como diz S. Paulo na segunda carta aos Coríntios (4, 7): «Trazemos em vasos de barro o nosso tesouro». E é sempre assim. Temos de aceitar o tesouro, mas também o barro, o barro que se quebra, o barro que se cola, o barro que não tem remédio, o barro que fica ferido. O poeta brasileiro Manoel de Barros, com quase 90 anos, é uma das grandes figuras espirituais do nosso tempo: «Prefiro as máquinas que servem para não funcionar». Isto exige uma conversão. Porque nós preferimos o que funciona. «Porque cheias de areia, de formigas e de musgo, elas podem um dia milagrar flores». Há um milagre que só nos chega pela pobreza.

O Evangelho das imagens | IMAGENS |
«Senhor, quando é que te vimos com fome e te demos de comer, ou com sede e te demos de beber? Quando é que te vimos peregrino e te recolhemos, ou sem roupa e te vestimos? Quando é que te vimos doente ou na prisão e te fomos ver?» E o Rei lhes responderá: «Em verdade vos digo: Quantas vezes o fizestes a um dos meus irmãos mais pequeninos, a Mim o fizestes».

Anúncios