É novo » 9.3.2014

O pão é vida, mas há mais vida na boca de Deus
A narrativa das tentações relembra-nos o trabalho interminável de ordenar as nossas escolhas, a escolher como viver. As tentações de Jesus são também as nossas ao abarcarem todos os relacionamentos do dia a dia. A primeira escolha diz respeito ao corpo e às coisas: sacia a fome, manda a estas pedras que se tornem pão. Pedras ou pão, pequena alternativa que Jesus coloca abertamente. E diz: queres tornar-te mais pessoa, viver melhor? Não esgotes a vida na procura de bens, de coisas. Sonha, mas nunca reduzas os teus sonhos a coisas e dinheiro. «Não só de pão vive o homem.» Dentro de mim há mais, uma excedência, uma brecha por onde entra o mundo, as criaturas, os afetos, um fragmento de Deus. O homem vive de cada palavra que sai da boca de Deus. Que acende em mim uma fome de Céu que tentamos preencher com largos tragos de Terra. O pão é bom, mas melhor é a Palavra de Deus; o pão é vida, mas há mais vida na boca de Deus. Meditação sobre o Evangelho do I Domingo da Quaresma.

Despediu os ricos de mãos vazias
As Vésperas terminam com um hino revolucionário, cantado ou rezado, atribuído por São Lucas a Maria de Nazaré quando, grávida de Jesus, foi visitar a sua prima Isabel, grávida de João Batista. Deste encontro a quatro resultou um poema conhecido, na tradução latina, como o Magnificat. A Bíblia de Jerusalém chama-lhe a «esperança dos pobres», mas apresenta-se também como a desgraça dos ricos: «Derrubou os poderosos de seus tronos/ e exaltou os humildes. // aos famintos encheu de bens/ e aos ricos despediu de mãos vazias». Este poema inquietante, amortecido pela repetição diária, faz parte do evangelho de Jesus Cristo que é uma boa notícia, precisamente porque anuncia não só aquilo a que é urgente dizer sim e aquilo que é preciso recusar, mas sobretudo porque mostra como é possível a todos começar já a mudar a vida. Os Fariseus, amigos do dinheiro, riam-se do lirismo das propostas paradoxais de Jesus sobre as relações entre felicidade e riquezas. Não podiam, por isso, entender as razões e o sentido da sua dureza com os ricos, os abençoados da divindade. Jesus não suportava uma cultura e uma religião que tinham como bênção divina um sistema de privilégios que mantinha e alimentava um abismo entre criaturas humanas.

Faculdade de Filosofia da Universidade Católica organiza congresso internacional sobre oralidade, escrita e memória
As religiões souberam articular «a oralidade e a escrita, através dos seus mitos, oráculos/profecias, livros sagrados e rituais». No judaísmo e cristianismo, «Deus cria todas as coisas pronunciando a sua Palavra Dabar / Logos / Verbum); Palavra que chama Abraão a uma nova terra e a uma Aliança». O Antigo Testamento foi suplantado em Jesus Cristo: «”Et Verbum caro factum est”: “A Palavra fez-se carne”. A Palavra é agora Boa Notícia (Evangelho) que salva, e deverá ser levada ao mundo inteiro. Anunciar, oralmente ou por escrito, fazer memória e actualizar o mistério, seja pela relação com Deus, seja com o próximo». Neste sentido, «ouvir a Palavra de Deus e pô-la em prática» é uma das sínteses do cristianismo. Também no domínio da filosofia «a palavra ocupa um lugar central, desde os seus inícios helénicos». No último século, a questão da oralidade, escrita e memória conheceu desenvolvimentos significativos, com contributos das principais correntes filosóficas, «desde a fenomenologia ao existencialismo, da hermenêutica à filosofia analítica, do estruturalismo ao pós-modernismo».

O papa Francisco e as mulheres
«Muitas coisas podem mudar, e com efeito mudaram, na evolução cultural e social, mas permanece um dado: é a mulher que concebe, que traz no seu seio e que dá à luz os filhos dos homens. E este não é simplesmente um dado biológico, mas encerra em si uma riqueza de implicações quer para a própria mulher, em virtude do seu modo de ser, quer para as suas relações, em função da sua maneira de se colocar em relação à vida humana e à vida em geral. Chamando a mulher à maternidade, Deus confiou-lhe o ser humano de forma inteiramente especial. No entanto, aqui existem dois perigos sempre presentes, dois extremos opostos que mortificam a mulher e a sua vocação. O primeiro consiste em reduzir a maternidade a um papel social, a uma tarefa, por mais nobre que seja, mas com efeito põe de lado a mulher com as suas potencialidades e não a valoriza plenamente na construção da comunidade. Isto tanto no âmbito civil, como no contexto eclesial. E, como reação a este há outro perigo, em sentido oposto, que consiste em promover uma espécie de emancipação que, para ocupar os espaços tirados ao masculino, chega a abandonar o feminino, com os traços inestimáveis que o caracterizam.

O Evangelho das imagens | IMAGENS |
«Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus.»

Exposição: Portugal é o primeiro país da Europa a acolher tesouros orientais do Kremlin
“Os Czares e o Oriente – Ofertas da Turquia e do Irão no Kremlin de Moscovo” é o tema da exposição temporária que o Museu Calouste Gulbenkian recebe em Lisboa até 18 de maio, naquela que constitui uma estreia da mostra na Europa. «A coleção é constituída por 66 peças, entre vestes litúrgicas, armas, arreios de cavalos, têxteis, joias e objetos preciosos, ofertas dos sultões da Turquia ou xás da Pérsia [atual Irão] nos séculos XVI e XVII aos czares russos», explicou a comissária da exposição, Fernanda Passos Leite, ao “Ensaio geral”, programa semanal de cultura da Renascença. A peça à entrada da exposição, composta por presentes de prestígio de diplomatas ou objetos importados da Turquia otomana e do Irão safávida, «é um ícone belíssimo de Nossa Senhora do Leite, cópia do séc. XVI de um mais antigo, muito venerado na catedral da Anunciação, no Kremlin».

“Ode marítima”, de Álvaro de Campos, por Diogo Infante e João Gil
«Oh frio repentino da porta para o Mistério/ que se abriu dentro de mim e deixou entrar uma corrente de ar!/ Lembro-me de Deus, do Transcendental da vida, e de repente/ A velha voz do marinheiro inglês Jim Barris com quem eu falava,/ Tornada voz das ternuras misteriosas dentro de mim,/ das pequenas coisas de regaço de mãe e de fita de cabelo de irmã,/ Mas estupendamente vinda de além da aparência das coisas,/ A Voz surda e remota tornada A Voz Absoluta, a Voz Sem Boca,/ Vinda de sobre e de dentro da solidão noturna dos mares,/ Chama por mim, chama por mim, chama por mim…» Motivado pela beleza das palavras de Álvaro de Campos, o ator Diogo Infante propõe-se levar o público através da viagem interior descrita na “Ode Marítima”. Em posfácio à edição da “Ode marítima”, anota o pensador José Gil: «Exterior e interior são separados pela mesma “Distância” que vai do poeta no cais deserto ao navio que ele vê ao longe (…) Todo o poema pode ser encarado nesta perspetiva: como vencer a Distância, ou seja, todas as distâncias de todas as naturezas que surgem, uma após outra (entre o paquete e o cais, entre eu-agora e eu-outrora, entre um cais e O Cais, etc.).»

Agenda para hoje 

Lisboa
Concerto: Cânticos da tarde e da manhã
Teresa Salgueiro, voz; Carisa Marcelino, aocrdeão de concerto; Òscar Torres, contrabaixo; Coro Solemnis
Para saber mais: Pastoral da Cultura

Lisboa
Visita guiada: “Calvário” no retábulo-mor da Igreja de São Roque
Igreja de S. Roque
16h30
Entrada gratuita, sujeita a inscrição prévia (máximo de 30 pessoas) pelos telefones 213 235 824 / 233 / 065 / 444

Lisboa
Música: Ciclo de missas para coro uníssono e órgão
Monodia XXI (Sérgio Silva, órgão; Fernando Pinto, direção)
I Domingo da Quaresma
Petr Eben (1929-2007): Missa Adventus et Quadragesimae
Igreja de S. Tomás de Aquino
19h30

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