É novo » Ruy Belo, 80 anos (27.2.2013)

Ruy Belo, «extraordinário dissidente lírico»
«Se bem me lembro, não terei seguido com grande consequência o tópico da saudade de Deus. Mas li duas ou três vezes a inteira poesia de Ruy Belo e ela passou a andar comigo. (…) Ruy Belo quem é? É um extraordinário dissidente lírico. E Portugal é a Praça Ruy Belo.»

Em redor de um livro: «A solidão dos filhos de Deus»
Talvez fosse agora tempo de começar a olhar esta poética naquilo que ela também é: aventura espiritual intensa como poucas, colóquio interior, despojado mesmo quando a voz tinha a energia sagrada das falas ininterruptas, ponte estendida no território de chamas que é essa quase circularidade entre presença e silêncio, entre dúvida e crença, dialéctica que aproxima a aridez trágica da passagem do tempo desse «no sé qué», de que João da Cruz falava e que nos romances de Bernanos e Graham Green, que Ruy Belo leu, recebia o nome de Graça.

Aquele grande rio eufrates
Somos verdadeiramente pessoas seguras de si
Longe de nós — que fará ele aqui? — o pensamento
de um dia deixarmos atrás de nós um corpo
lembranças nossas em alguém vazios os lugares onde estivemos
Quem nos dirá a nós que lá no mar as ondas
não venham ainda a precisar de serem vistas
para continuar a nascer e a rebentar?

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