É novo » Parabéns Manoel de Oliveira!

O cineasta Manoel de Oliveira celebra hoje 104 anos. Recordamos alguns dos textos publicados no site da Pastoral da Cultura sobre o realizador que a Igreja Católica em Portugal distinguiu em 2007 com o Prémio Árvore da Vida – Padre Manuel Antunes. Tinha então 99 anos. Em 2010 o papa Bento XVI foi ao seu encontro no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, numa saudação tão cordial como simbólica.

Religião e arte: Palavra de Manoel de Oliveira no encontro de Bento XVI com o mundo da cultura
Considerando (…) a religião e a arte, ambas se me afiguram, ainda que de um modo distinto é certo, intimamente voltadas para o homem e o universo, para a condição humana e a natureza Divina. E nisto não residirá a memória e a saudade do Paraíso perdido, de que nos fala a Bíblia, tesouro inesgotável da nossa cultura europeia? (…) Aproveito a circunstância para, como pertencente à família cristã, de cujos valores comungo, e que são as raízes da nação portuguesa e a de toda a Europa, quer queiramos ou não, saudar com profunda veneração sua Santidade, o Papa Bento XVI em visita ao nosso País e rogar filialmente que nos deixe a Sua bênção.

«A morte é a única entrada para o absoluto»
«Ao nascer, não há outra finalidade certa que não seja a morte. Hoje, na minha idade, penso que a morte, quer para um religioso e crente, como eu sou, quer para um leigo, será a única entrada para o absoluto.»

Manoel de Oliveira: o espanto pelo enigma do Verbo feito carne
Se no caso de o Acto da Primavera, é explícito o tema da própria existência humana e da sua relação com uma transcendência Cristã, em toda a sua obra é impressionante a fidelidade à mesma ideia, o constante espanto sobre o enigma do Verbo feito carne. E é impressionante a lucidez, que nunca perde, de saber que também nessa vida se insere a arte e o seu cinema. A sua arte, na total exposição do seu próprio ponto de vista, lealmente, sem truques de ilusão, nunca deixa de ser uma maneira de estar na vida perante os outros, de estar em público, e de desafiar os outros a uma mais profunda consciência do que é viver.

A surpresa de Manoel de Oliveira com a atribuição do Prémio de Cultura Padre Manuel Antunes
«A minha maior preocupação espiritual é conhecer o mundo, o princípio da nossa natureza. A palavra de Deus. E o que significa Deus? Significa Criador. Ninguém nasceu por vontade própria e o Criador deu-nos a alternativa de poder morrer quando quisermos. Podemos resistir até ao fim ou matarmo-nos. Toda a natureza, como hei-de dizer… material, tudo o que é matéria, é para morrer – perecer ou transformar-se é a mesma coisa.»

Palavras de Manoel de Oliveira ao receber o Prémio de Cultura Padre Manuel Antunes
A estrutura do invisível faz-nos sentir justamente o que não é visível, como por exemplo o céu. O anterior Papa dizia até que o céu era abstracto. A música leva-nos para esse espaço, espaço recôndito. É a vida, creio como católico que nasci, católico como fui educado pela família, num colégio de Jesuítas, e sobrecarregado com todas as dúvidas que pesam, creio que mesmo sobre os grandes santos. A dúvida é um estímulo de procura. É difícil vencer essa procura. Ou, por outras palavras, é difícil encontrar o que se procura. É nisso mesmo, nessa dificuldade, que, quanto a mim, se resume o grande mérito.

Palavra de D. Manuel Clemente durante o acto de entrega do Prémio a Manoel de Oliveira
Apaixonado juvenil de velocidade, filmou o rio e a sua faina com cenas estonteantes de sugestão e ritmo. Como depois, em história infantil de correria e jogo. Mas, já então, sobressaindo o recorte de cada figura, a densidade de cada personagem. Ressaltava, em suma, a humanidade de cada figurante, ou melhor, cada figura da humanidade transportada. Foi andando a vida do Autor, em pontuação cinematográfica. Digo andando, não digo correndo. Como quem saboreia e constrói, como quem repara e se detém, se detém cada vez mais, andando sempre…

Entrega do Prémio Árvore da Vida – Padre Manuel Antunes a Manoel de Oliveira: reportagem fotográfica | IMAGENS |

“O Gebo e a Sombra”: obra mais recente de Manoel de Oliveira propõe com «simplicidade mas nenhum simplismo» obra de Raul Brandão sobre o «poder do dinheiro» | IMAGENS + VÍDEO |
O desafio, diz, veio de um amigo: fazer um filme sobre a pobreza. Foi feito há anos e Manoel de Oliveira considerou-o difícil. Difícil, não impossível. Anos passados surge “O Gebo e a Sombra”. Um olhar sobre a obra homónima de Raul Brandão, que o cineasta recria de forma mestra, com grande simplicidade mas nenhum simplismo, que é também um olhar sobre os paradigmas existenciais do passado e do presente, sobre Portugal e os portugueses, sobre a pobreza, a honra, o sonho e a esperança, oferecendo uma profunda reflexão sobre o poder do dinheiro.

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